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O XIII Encontro de Pesquisa em Educação FaE/UFMG ocorrerá entre os dias 16 a 20/10 na FaE/UFMG. Convidamos a todos para participa...

Você conhece algum (a) estudante negro ou indígena que ingressou no ensino superior por meio de reservas de vagas (cotas)?







Ao longo da última década, inúmeras experiências de ações afirmativas têm sido colocadas em prática em diferentes instituições de ensino superior no Brasil. Concomitantemente, temos verificado uma crescente produção bibliográfica sobre tais experiências, que nos ajudam a compreender as dimensões concretas da implementação das Ações Afirmativas no Brasil, bem como os impactos pedagógicos, políticos e administrativos que o ingresso de um novo perfil de estudantes tem provocado no interior destas instituições.

A presente pesquisa se insere neste contexto e tem como objetivo central avaliar o impacto das ações afirmativas na trajetória acadêmica e profissional de estudantes negros(as) e indígenas egressos das políticas de reserva de vagas nas seguintes universidades, bem como discutir os principais desdobramentos destas políticas no âmbito acadêmico brasileiro, com ênfase nos aspectos positivos e nas potencialidades de políticas, programas e experiências de Ações Afirmativas. Propõe-se uma reflexão sobre os principais impactos destas políticas nas trajetórias acadêmicas e profissionais de estudantes que tiveram acesso a alguma das diferentes modalidades de Ações Afirmativas no ensino superior. 
Coordenada pelo Programa Ações Afirmativas na UFMG e realizada por uma rede de universidades, incluindo a própria Universidade Federal de Minas Gerais, a pesquisa carinhosamente chamada de "Trajetórias de Cotistas" envolve pesquisadores(as) da Universidade Federal do Amapá, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, da Universidade Federal de São Carlos, da Universidade Estadual de Goiás e da Universidade Estadual de Santa Catarina. Para obter mais informações sobre os membros da pesquisa, acesse https://drive.google.com/file/d/0B4NxVnAeXjjuOFY3Unc5MFVIT3M/view?usp=sharing

                  Na Foto, da direita para a esquerda: Fernando Alvarenga (UFMG), Tatiane Consentino (UFSCAR), 
          Jaqueline Oliveira (UFMG), Mariana Marilack (UFMG), Piedade Videira (UNIFAP), Dyane Brito (UFRB), 
                           Joana Passos (UFSC), Luciana Lima (UFRN) e Rodrigo Ednilson de Jesus (UFMG).


De acordo com Santos e Queiroz (2005), tanto a ausência de dados concretos sobre o pertencimento racial dos estudantes matriculados nas instituições de ensino superior antes do início das políticas de cotas, quanto o nível “especulativo” em que foram mantidos os debates sobre tal temática, explicitava a urgência em realizar avaliações comparativas entre os desempenhos dos estudantes cotistas e não-cotistas e os impactos provocados nas instituições de ensino que adotaram tais políticas.
 Após analisar os dados relativos aos candidatos inscritos no vestibular da Universidade Federal da Bahia (UFBA) nos anos de 2003, 2004 e 2005, Santos e Queiroz (idem) afirmam que, no ano de 2005, um número maior de estudantes pretos e pardos foi selecionado no exame vestibular da instituição. Segundo eles, no ano de 2003 e de 2004, 40,9% e 35% de estudantes brancos, 41,8% e 46,1% de estudantes pardos e 13,6% e 15% de estudantes pretos, respectivamente, foram aprovados no vestibular; sendo que no ano de 2005 foram aprovados 21,6 % de estudantes brancos, 57,5% de estudantes pardos e 17,1% de estudantes negros.
Além de darem destaque para o aumento gradativo da participação de pretos e pardos entre os estudantes aprovados nos vestibulares da UFBA, sobretudo após a implementação do sistema de cotas no ano de 2005, os autores chamam a atenção para o aumento, também progressivo, das notas de corte dos exames vestibulares nos três anos; o que, de certo modo, contrariou as perspectivas catastróficas sobre a queda na qualidade do estudante ingressante. De acordo com Santos e Queiroz (2007), as notas de corte na primeira fase do vestibular variaram entre 5.018,7 no ano de 2003, 5.099,8 em 2004 e 5.117,4 no ano de 2005. Já as notas referentes à segunda fase, variaram entre 5.009,3 no ano de 2003, 5.056,4 em 2004 e 5.089,5 no ano de 2005.
Em estudo publicado no ano de 2007, refletindo sobre o desempenho acadêmico de estudantes cotistas e não-cotistas da UFBA após a criação do sistema de reserva de vagas no ano de 2005, Santos e Queiroz afirmaram que dos 57 cursos de graduação da universidade, em 32 os estudantes cotistas obtiveram notas iguais ou superiores aos estudantes não-cotistas. Dos 18 cursos mais concorridos da universidade, em 11 os estudantes cotistas obtiveram notas iguais ou superiores às notas obtidas pelos estudantes não-cotistas. Adicionalmente, afirmam que, mesmo em cursos de acentuada concorrência e alto prestígio social, como Engenharia Civil, Química, Geofísica, Ciências da Computação e Arquitetura, o percentual de estudantes cotistas com coeficiente de rendimento na faixa de 7,6 a 10,00 pontos mostrou-se igual ou superior ao coeficiente de rendimento obtido pelos não-cotistas.
No ano de 2009, Velloso divulgou os resultados de outra pesquisa sobre desempenho acadêmico entre estudantes cotistas e não-cotistas, agora entre estudantes da Universidade de Brasília. Similarmente aos resultados encontrados por Santos e Queiroz (2009) entre os estudantes da UFBA, Velloso (2009) ressaltou que as observações realizadas evidenciaram que os desempenhos de estudantes cotistas era igual ou superior ao desempenho dos estudantes não-cotistas.
Apesar de reconhecer a importância da realização de estudos como os acima citados, como forma de evidenciar a implausibilidade de argumentos que, de modo determinista, correlacionam o ingresso de estudantes negros e oriundos de escolas públicas à queda progressiva da qualidade acadêmica; há outros pontos que, acredito, merecem destaque.
Na perspectiva dos pesquisadores da Trajetória de Cotistas, tão importante quanto os resultados positivos das avaliações de desempenho de estudantes cotistas, em comparação com o desempenho de estudantes não-cotistas, é o “consenso relativo” que se construiu em torno da necessidade de realizar medições quantitativas sobre a performance acadêmica dos estudantes, como meio de testar as hipóteses sobre simetria ou assimetria da capacidade de desempenho intelectual (medido entre estudantes negros e brancos e entre estudantes oriundos de escolas públicas e escolas privadas.
Interessante observar que, ainda que evidenciado o desempenho acadêmico mais promissor de estudantes cotistas, negros e de escolas públicas, tais avaliações de desempenho correm o risco de insistir em julgamentos “essencializados”. Ao tomar os desempenhos acadêmicos, de negros ou brancos, de ricos ou pobres, de moradores do sudeste ou do nordeste, como medidas da capacidade intelectual dos estudantes (compreendidas como essências cognitivas), algumas análises perdem uma grande oportunidade de compreender tais desempenhos acadêmicos como processos social e historicamente construídos.
Em um dos volumes da coleção Educação para todos, que reuniu textos dedicados a refletir o “Acesso e permanência da população negra no ensino superior”, Reis, Dyane (2007), com base em entrevistas realizadas com estudantes cotistas da Universidade Federal da Bahia, revela alguns dos variados significados construídos e reconstruídos sobre o desempenho acadêmico.

Os estudantes cotistas observam o score global (desempenho acadêmico) como uma estratégia extremamente importante, pois, à medida que mantêm seus escores altos estes estudantes têm a possibilidade de se matricular nos primeiros dias e assim escolher matérias e concentrar os horários em apenas um turno e, deste modo, conseguem trabalhar ou estagiar no turno oposto. Este é um dado importante e interessante ao mesmo tempo, porque temos observado as pesquisas desenvolvidas na UFBA afirmarem que: a média de desempenho dos estudantes ingressos pelo sistema de reserva de vagas é superior a dos seus colegas ingressos pelo sistema comum, e a análise realizada esteve sempre centrada em apenas dois aspectos: I) o de que estes estudantes precisam provar, mais que os outros, a sua capacidade; e II) que estes estudantes se agarram com todas as forças a esta oportunidade (REIS, D., 2007, p.60).


A progressiva ampliação de estudos e análises sobre a nova realidade do ensino superior brasileiro, considerando o novo grupo de estudantes incluídos por meio das políticas de democratização ou ampliação do ensino superior, tem permitido a alguns pesquisadores (e poderiam permitir ao campo científico de modo mais abrangente), conhecer um pouco mais sobre as condições materiais destes novos estudantes, as estratégias utilizadas por eles no enfrentamento de possíveis dificuldades e sobre as (novas) relações sociais no interior das comunidades acadêmicas após a entrada deste novo público. Adicionalmente, o ingresso de um novo “tipo” de estudante, marcado por diferentes experiências de vida, pode se configurar em uma excelente oportunidade para, entre outras coisas, revisar e ampliar teorias e conteúdos estabelecidos e naturalizados por inúmeras disciplinas e inúmeros cursos.
Assim, além de compreender as modificações nas estruturas acadêmicas provocadas pela implementação de Políticas de Ações Afirmativas em universidades federais e estaduais brasileiras, a pesquisa Trajetórias de Pesquisa também almeja conhecer as experiências acadêmicas e profissionais de estudantes negros e cotistas, bem como os impactos de suas experiências acadêmicas em suas famílias, comunidades e redes de amigos.


Portanto, se você é negro ou indígena e ingressou na universidade por meio de reservas de vagas (cotas)? Entre em contato conosco e se cadastre: 
https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfMfDqEWeqEs31AWNDf03Gc2QQNoJ-84e9Cr9KTLPfLnUHTGA/viewform?c=0&w=1

Se conhece algum estudante negro ou indígena que ingressou na universidade por meio de reservas de vagas (cotas)? Fale com eles sobre nossa pesquisa!
Nos contacte por e-mail: projetotrajetoriascotistas@gmail.com





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