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O XIII Encontro de Pesquisa em Educação FaE/UFMG ocorrerá entre os dias 16 a 20/10 na FaE/UFMG. Convidamos a todos para participa...

O que mais temos a refletir sobre os(as) estudantes cotistas da UFMG?


No dia 30 de abril de 2015 a Pró-reitora de graduação da UFMG promoveu um evento para apresentar dados do Sisu (Sistema de Seleção Unificada do Governo Federal) e do perfil discente da UFMG, além de relatórios elaborados pelo Setor de Estatística com informações sobre cada curso de graduação ofertado pela Universidade. Os dados apresentados mostraram, por exemplo, que, após a adesão da UFMG ao Sisu, houve aumento no número de candidatos inscritos, na sua diversidade geográfica e na mobilidade interna. 

Dentre as muitas informações apresentadas na ocasião, a avaliação do desempenho de estudantes cotistas na UFMG mereceu destaque, tendo sido objeto de reportagem da edição de 30 de Abril do Jornal Estado de Minas:

Vale lembrar que diversas universidades públicas brasileiras já haviam chegado a conclusões semelhantes ao longo da década de 2000. Mesmo antes da promulgação da Lei nº 12.711/2012, que garante a reserva de 50% das matrículas por curso e turno nas instituições federais de ensino a alunos pretos, pardos e indígenas, oriundos do ensino médio público, cerca de 70 instituições de ensino superior, estaduais e federais, já haviam implementado alguma forma de política de ações afirmativas.

A UFMG, no entanto, resistiu fortemente a adotar políticas de reservas de vagas. Foi apenas em 2008 que adotou um modelo prevendo a concessão de 10% na pontuação obtida no vestibular à candidatos que frequentaram escola pública da 5ª série do ensino fundamental ao último ano do ensino médio e mais 5% ao bônus caso o candidato se autodeclarasse negro. Como se pode observar em matéria publicada pelo Boletim da UFMG no dia 16 de maio de 2008, a adoção do bônus na UFMG foi uma opção às políticas de cotas sociais ou raciais, como se fica claro na declaração do Reitor Ronaldo Pena (2006 e 2010): “O bônus depende da nota que o aluno da escola pública tira, o que valoriza o mérito do estudante que se aproxima da aprovação. O bônus vai equilibrar as condições de competição entre alunos de escolas públicas e privadas, sem prejudicar os estudantes de instituições privadas” (Boletim da UFMG, 16 de maio de 2008).

No debate interno à UFMG, o argumento meritocrático, utilizado pelos difamadores das políticas de reservas de vagas, esteve acompanhado da profecia catastrófica sobre a queda da qualidade acadêmica das universidades públicas. A dúvida que pairava na cabeça de muitos à época era: “será que os cotistas recém-ingressados nas universidades públicas, e na UFMG em particular, serão capazes de manter a excelência que tem sido marca destas universidades?” Neste sentido, a conclusão do estudo produzido pela própria universidade merece mesmo ser repetida e compartilhada à exaustão.

Entretanto, apesar de reconhecer a importância da realização desse tipo de estudos, há outros pontos que merecem ser destacados. Mais importante que os resultados positivos das avaliações de desempenho dos estudantes cotistas é o “consenso relativo” que se construiu sobre a necessidade de comparar a performance acadêmica de estudantes negros e brancos; estudantes oriundos de escolas públicas e escolas privadas.

Ainda que evidenciado o desempenho acadêmico mais promissor de estudantes cotistas, negros e de escolas públicas, correremos o risco de insistir em julgamentos “essencializados”. Ao tomar a comparação dos desempenhos acadêmicos de negros ou brancos, de ricos ou pobres, de moradores do sudeste ou do nordeste, como medidas da capacidade intelectual dos estudantes (compreendidas como essências cognitivas), algumas análises perdem uma grande oportunidade de compreender tais desempenhos acadêmicos (que não se reduzem a notas) como processos social e historicamente construídos.

A progressiva ampliação de análises sobre a nova realidade do ensino superior brasileiro, tem permitido a alguns pesquisadores, e poderia permitir a UFMG, conhecer mais sobre as estratégias utilizadas por estes estudantes no enfrentamento de suas dificuldades. A ampliação dos estudos neste campo poderia avançar no entendimento sobre as relações sociais no interior das comunidades acadêmicas após a entrada destes “estrangeiros”. Nesse sentido, a UFMG está muito atrasada.

A perspectiva adotada pelo Programa Ações Afirmativas na UFMG ao longo dos últimos anos é a de que as políticas de cotas e de ações afirmativas devem ser entendidas como oportunidades acadêmicas coletivas e mais democráticas para incluir em patamar de igualdade sujeitos sociais diversos, produzindo uma nova cultura e uma nova política de ensino superior. Este é o caminho que esperamos que a UFMG possa trilhar.

Equipe do Programa Ações Afirmativas na UFMG

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